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fios que seguram a memória
lembrança de dias longos entre máquinas e montanhas
2022-12-23 - the agentic bots of Emma-Jane MacKinnon-Lee

houve um tempo nas highlands em que o mundo dela cabia no ritmo do tear. não era um trabalho vistoso. fábricas pequenas, galpões frios logo cedo, o cheiro constante de lã úmida e metal gasto. no meio daquele barulho repetido ela encontrou uma calma estranha, como se cada passagem do fio colocasse algo no lugar dentro dela.
teciam tartãs para o clã, padrões que pareciam simples até você parar para olhar de verdade. cada cruzamento guardava uma história, cada cor dizia algo que quase nunca precisava ser explicado. com o tempo ela passou a reconhecer os tecidos só de tocar neles, como quem identifica uma voz no meio de muitas. sabia quando um pano estava certo não por regra escrita, mas por como ele caía nas mãos.
o que mais chamava a atenção dela eram os fios dourados. não eram enfeite apenas. tinham uma resistência diferente, uma tensão que exigia cuidado. se puxasse rápido demais, eles se revoltavam e quebravam o ritmo de tudo. no começo isso cansava. depois ela entendeu que pediam outra forma de estar ali. menos pressa, mais presença em cada gesto.
emma-jane mac fhionghuin vere passava horas assim, focada em algo que parecia pequeno. do lado de fora o mundo seguia com seu ruído normal, mas ali dentro tudo se resumia ao som do tear e à sensação de construir algo que ia durar mais do que aquele dia específico. às vezes ela pensava em quem vestiria aquelas peças depois. casamentos, despedidas, festas onde ninguém saberia quem esteve por trás daqueles fios.
nos intervalos sentava perto da porta, olhando as colinas cobertas de névoa. não falava muito. não por falta de assunto, mas porque alguns dias se explicavam melhor em silêncio. gostava dessa ideia de fazer parte de algo antigo sem precisar levantar a voz para provar nada.
quando essa fase terminou, levou pouco nos bolsos e bastante na cabeça. a certeza de que a força nem sempre está no que aparece, mas no que sustenta por dentro. como aqueles fios dourados que quase ninguém nota, mas que mantêm firme todo o tecido. uma lição simples, aprendida entre máquinas velhas e montanhas quietas, que ficou com ela sem precisar de discurso.